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| • 23/07/2007 |
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| “Quem não inova, não está preparado. Se não está preparado, não vende o peixe” |
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• entrevistas
Ao longo de 20 anos de atuação, a Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei) trabalha para estimular a competitividade do País, por meio da promoção da inovação tecnológica nas empresas brasileiras. Como entidade representativa do segmento das empresas e instituições inovadoras dos mais variados setores da economia, a Anpei atua junto às instâncias de governo e a formadores de opinião, visando elevar a inovação tecnológica à condição de fator estratégico da política econômica e de ciência e tecnologia do Brasil. Recentemente, a Associação divulgou um surpreendente estudo sobre a inovação nas micro e pequenas empresas (MPEs), que, entre seus resultados, revelou que, ao contrário do que se pensava, essas organizações de menor porte são altamente inovadoras. Na entrevista a seguir, Martín Izarra, diretor da Anpei, fala mais sobre a estudo e o que ainda precisa ser feito para alavancar a inovação no País.
Equipe Editorial: Como está a competitividade e a inovação nas micro e pequenas empresas hoje? Martín Izarra: Nós montamos um comitê com pessoas de diversos setores, estados e empresas no ano passado cujo objetivo era descobrir por que a micro e pequena empresa não inovava. Fizemos um questionário, orientado a processos, que enviamos a cerca de 20 mil empresas. Fizemos um levantamento nas empresas de São Paulo - empresas altamente inovadoras e empresas de boa gestão do Sebrae - e encontramos algumas constatações bem diferentes. Descobrimos que a micro empresa é mais inovadora que a pequena empresa e a pequena é mais inovadora que a média. Isso foi detectado através desse questionário. A tendência é de que a micro é mais prolífica e consegue fazer mais produtos que a pequena. Nós falávamos que as pequenas empresas não inovam, mas é ao contrário, as micro e pequenas empresas (MPEs) são altamente inovadoras. Esse foi o primeiro susto que levamos.
Equipe Editorial: Por que as micro e pequenas empresas inovam são mais do que as grandes? Martín Izarra: Existem motivos de dinâmica. Essas empresas são fundadas por empreendedores que criam a empresa conforme seu ideal e querem crescer em função da inovação tecnológica. Eles querem expandir a sua estratégia, inovar e crescer. São empresas muito ágeis, em que o empreendedor é que faz a inovação com equipes muito estimuladas para inovar e pouca burocracia interna. Então, rapidamente, eles mudam o produto. Esse seria o motivo de porque elas são tão inovadoras. Além disso, elas têm que entrar no mercado e, para tal, o esforço é duplo. Por outro lado, eles não são muito formais, o que é um ponto negativo.
Equipe Editorial: O fato das grandes empresas não estarem envolvidas mais diretamente com a inovação é bom ou ruim? Martín Izarra: É bem complexo o processo. Na verdade, a micro e pequena empresa está sozinha. Ela não tem incentivos hoje. A lei de inovação não serve para elas, só para empresas que trabalham com lucro real - e as micro, pequenas e algumas médias empresas trabalham com lucro presumido. É complexo como se desenvolve uma micro e uma pequena empresa sem incentivos. Os incentivos vão para as grandes empresas. Por outro lado, nós temos uma esperança. Agora em julho, está saindo a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que considera que uma reserva de 20% do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia deve ser aplicado em inovação nas MPEs. É um dinheiro muito bom, são milhões de reais. O desafio é como fazer chegar o dinheiro à micro e pequena empresa. Na hora de pleitear um incentivo, elas têm que enfrentar formulários complexos, muita burocracia do governo e exigências de garantias e prazos. Por exemplo, existe uma subvenção feita pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) que leva, talvez, de sete a oito meses para sair. Depois de sete ou oito meses, a realidade é outra e se perde o estímulo.
Equipe Editorial: O que pode ser feito para que essas pequenas e micro empresas consigam apoio do governo? Martín Izarra: É necessário primeiro uma intenção política do governo para ajudar essas empresas. Tanto a Finep quanto o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) têm a intenção política de ajudar, mas não sabem como. São instituições muito grandes e não têm a mesma linguagem dos pequenos. Estamos com um excelente produto, uma excelente oferta, mas não temos como vender. Nossa proposição no comitê é que surjam institutos, prefeituras, secretarias de ciência e tecnologia que sejam intermediárias e absorvam a idéia da inovação, aplicando nos seus municípios. Já estão aparecendo algumas iniciativas locais. Nós temos os casos como o da Fundação Certi da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que está inovando, buscando dinheiro da Finep ou de outros e fazendo projetos com as MPEs com pouca burocracia. Valores pequenos, mas pouca burocracia. Isso está provocando um diferencial muito grande. Então, o que cabe ao governo é delegar as funções de aplicar os incentivos ao segundo escalão, institutos e prefeituras; e que falem a mesma linguagem do micro e pequeno empresário. Aí, vamos ter uma verdadeira sinergia.
Equipe Editorial: Nos destaques dos estudos que foram divulgados por vocês, 84% dos entrevistados falaram que as oportunidades de mercado é que são propulsoras da inovação. Isso é bom ou ruim? Martín Izarra: É excelente. Significa que o mercado nacional está muito dinâmico e as empresas inovam porque existem oportunidades de vender e criar novos produtos. A oportunidade é o melhor sintoma de que o mercado é dinâmico e, se as empresas aproveitam isso inovando, estão de parabéns. O interessante é que elas estão focando sua percepção de inovação numa direção correta, que é inovar no produto, mas também no processo. São duas coisas: quando ela inova no produto, está se diferenciando no mercado, procurando e entrando em novas oportunidades de mercado; quando inova no processo, vai atrás do custo e lucratividade. Tem um contraste muito grande com as estatísticas da Bolsas de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (Bitec) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram que, até 2003, as empresas pensavam que inovar era comprar máquinas. Na estatística que nós levantamos, inovar não é comprar máquina, é inovar produtos e processos. Comprar máquinas é apenas um suporte para melhorar a inovação. Essa é uma mudança muito grande. Boa parte das empresas entrevistadas pela Bitec, praticamente não inovavam, apenas compravam máquinas. Isso mudou e agora as empresas inovadoras são bem mais dinâmicas.
Equipe Editorial: Que outros aspectos foram surpreendentes nesse estudo? Martín Izarra: Quem faz a inovação é o empreendedor, não a empresa. Então, o governo, o Sebrae e a Finep, têm que tratar pensando no empreendedor e não na empresa. Isso foi uma constatação interessante que nós descobrimos. Outra constatação é que eles não têm uma boa gestão, a gestão de tecnologia é ainda muito informal. Isso é natural. Uma observação forte é que, dos entrevistados, somente 30% conhece e usa incentivos do governo. É um choque. Elas desconhecem os incentivos.
Equipe Editorial: Qual a causa desse desconhecimento? Martín Izarra: O gestor da micro e pequena empresa não tem tempo para entrar dentro de um site com muitos links e atalhos. E quando tem tempo, descobre que é muito complicado. Então, ele ignora. Isso o governo tem que mudar. Acho que esses são os pontos mais importantes. O governo tem que corrigir isso, de forma de que todas as empresas conheçam os incentivos.
Equipe Editorial: Qual a importância da inovação hoje? Martín Izarra: Sem inovação, não tem futuro. Quem não inova não tem oportunidades de mercado. Quem está procurando hoje o mercado está procurando diferenciações, não só o preço, mas recursos adicionais, soluções adicionais, produtos que aumentem a produtividade de toda a empresa, assegure qualidade, reduzam custos e sejam máquinas com mais recursos. O cliente final vai comprar daquele que tem mais recursos, preço e qualidade. Quem não inova, não está preparado. Se não está preparado, não vende o peixe. Essa é uma lei. Podes ver que inovação hoje é necessária até para um comércio. Tem que inovar, seja na forma mercadológica ou tecnologia. Inovação não é só inovar no produto, mas também no processo.
Entrevista realizada com exclusividade pela equipe editorial da Enfato Comunicação Empresarial para o site do MBC.
Julho/2007
Coordenação editorial: Raquel Boechat Edição: Giuliana Giavarina
Enfato Comunicação Empresarial (51) 3333.7832/ 3333.9912 www.enfato.com.br
Fonte: Enfato Comunicação Empresarial
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