Por Michal Gartenkraut
A pesquisa de mortalidade de micro, pequenas e médias empresas do Sebre divulgada no segundo semestre do ano passado trouxe números animadores. Ela mostra que o percentual de fechamento dessas empresas é de 22%. Há cinco anos chegava-se a quase 50%.
Alguns afirmam que o cenário positivo deve-se a melhorias na conjuntura de mercado, na política monetária e até a novos pacotes na carga tributária favorecendo os pequenos. Sem dúvida, são pontos relevantes, mas não necessariamente determinam o tempo de vida de um empreendimento. O fator primordial que condiciona a sobrevida de uma organização é a gestão. O conhecimento de um sistema de gestão eficaz propicia ao empreendedor a capacidade de análise e a visão sistêmica necessários para navegar nesse oceano de adversidades que é o mercado. E esse conhecimento, tão vital, costuma ser ignorado pelas escolas na formação profissional. Os números positivos foram alcançados porque esses empresários foram desesperadamente buscar em instituições paralelas o que lhes deveria ter sido dado como base na universidade.
No mundo de hoje, dos novos paradigmas, observa-se que a demanda de recursos humanos é por profissionais preparados para enfrentar ambientes de risco, vale dizer, de pessoas aptas a tomar decisões em cenários que envolvem riscos de várias naturezas; pessoas capacitadas a identificá-los, avaliá-los e mitigá-los. Junte-se a essa qualidade capacidades de liderança, de trabalho em grupo, de busca da inovação, e têm-se o perfil de um empreendedor (não confundir com empresário, que precisa ser um bom empreendedor mas não vice-versa).
Ao contrário do que muitos pensam, o empreendedor não é um amante do risco, como se fosse um jogador profissional. O empreendedor é intuitivo, mas não impulsivo nem imediatista. Tem de ser um profissional bem preparado, ter consciência de que colocar suas idéias em prática requer uma visão sistêmica e de futuro do negócio. Sabe da necessidade de gerir processos e pessoas, de gerar valor, conhecer seu cliente e o mercado, se relacionar com a sociedade de forma responsável e montar alianças e parcerias.
De modo geral, nosso sistema educacional ainda não encontrou o melhor caminho para a formação de profissionais com essas características. De fato, não são desprezíveis os diversos desafios na concretização dessa tarefa. Um primeiro refere-se ao próprio método de ensino, que evidentemente não pode ser o tradicional, ao qual fomos acostumados no passado: professor em sala de aula, de um lado, transmitindo conhecimentos a alunos, de outro. Zero de exposição do aluno a um ambiente de risco. Ensinar empreendedorismo, pois, vai requer a introdução de mudanças profundas no ensino, uma verdadeira revolução na escola.
Um segundo desafio é a formação de professores. Naturalmente, para bem ensinar, precisamos de professores com experiência e familiaridade com o tema. Infelizmente, não é o que temos hoje, qualquer que seja a escola observada. Os professores não foram preparados para esse tipo de formação e, frequentemente, exibem mesmo um viés anti-empreendedor.
Essa situação - com o mercado demandando profissionais de perfil empreendedor e o sistema educacional com dificuldades para atendê-la – sobrecarrega os programas de contratação e treinamento das empresas, que acabam arcando com os custos de complementação das lacunas de formação. Quem opta pelo negócio próprio, além, de todos os desafios já conhecidos precisa enfrentar mais esse: buscar cursos, capacitações, gastar tempo, dinheiro e, em muitos casos, se deslocar longas distâncias para correr atrás o que a universidade se recusa a lhe dar. E é só por esse esforço extra mobilizado pelo instinto de sobrevivência que os números da pesquisa do Sebrae mudaram.
Michal Gartenkraut é presidente-executivo da FNQ – Fundação Nacional da Qualidade
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